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Minha avó Antônia

Aristóteles Madruga
Por: Aristóteles Madruga Fonte: Aristóteles Madruga
27/08/2026 às 10h46 Atualizada em 29/08/2026 às 10h28

Num domingo, em setembro de 2006, eu sentei com minha vó no terraço da casa dela e pedi para ela me contar sobre sua vida. Anotava o que ela falava.

Deixo-a a seguir contando sua história:

“Meu nome é Antônia de Jesus Madruga da Silva, meu nome de solteira era Antonia de Jesus Madruga, sou filha de Zacarias Coutinho Madruga e Áurea de Jesus Madruga.

Tenho 84 anos, nasci em Piabuçu, na casa dos meus pais, em 12 de abril de 1922. Minha mãe, D. Áurea, teve 14 filhos, sendo 2 gêmeos: Maria da Dores, Anita, Ridete, Antonio, Geraldo, Cleonice, José, que morreu novinho, João, outro José, Maria José, Antonia e mais três que agora esqueci os nomes.

Meu pai, Zacarias, trabalhava em uma fazenda, depois em outra fazenda, em usina de cana-de-açúcar, de cachaça. Trabalhava com povo rico, ganhava um salário para sustentar todo mundo.

A casa em Piabuçu ainda existe hoje, a igreja ficava perto. Depois de trabalhar em várias fazendas, ele veio para a terra do Encantado, da sua sogra Chiquinha (Francisca) Madruga, mãe de Áurea.

O nome da terra sempre foi Encantado. Depois que eu me conheci de gente, o nome já era Encantado. Havia também próximo o Cumaru, havia também Capuabinha, ainda há Itaúna, depois Taepe, aí chega a Mataraca, quando atravessa o Rio Camaratuba.

Fui batizada na igreja de Piabuçu. Quando viemos de lá para o Encantado, já havia uma casa feita da minha avó Chiquinha que meu pai se apossou com a família toda. Nesse tempo os filhos já eram maiores, mas eu tinha uns 6 anos.

Minha mãe Áurea tomava conta da casa, vivia em casa, costurava, cuidava de todos os filhos. A casa do Encantado era comprida, tinha uma cozinha, havia um quarto para os pais e outro para os meninos. A casa não tinha móveis, só mesa e tamboretes, pois não éramos ricos, mas nunca passamos fome. Havia mistura, peixe, carne. Meu pai plantava macaxeira, inhame.

Fez um plantio na beira do rio, o rio que ainda está lá hoje, de arroz, milho, feijão. Aí, ele trabalhando, uma formiga, um inseto mordeu seu pé. Ele passou muito tempo doente e morreu em casa, apesar de ter ido a hospital em Rio Tinto e em João Pessoa. Anita viajou aos hospitais com ele, quem ajudava foi o Padre Madruga, que morava em Rio Tinto.

Eu ainda passei uns 8 dias na casa do padre com meu pai. Ele viajava doente em carro de boi, talvez de ambulância, mas morreu na casa do Encantado. Várias pessoas passaram a noite acordadas com ele.

Quando meu pai morreu, eu tinha 20 anos.

José Francisco da Silva, meu futuro esposo, foi dado ao meu padrinho quando tinha 4 anos.

Quem criou foi meu tio e padrinho José Madruga, irmão de Áurea. José Madruga era solteirão, nunca casou, morreu solteirão, morava com a mãe Didinha toda a vida no Encantado. Ele morreu no hospital em João Pessoa.

Ele resolveu criar, pois a mãe o ofereceu e, como adoeceu, entregou com 4 anos.

Na casa da viúva Didinha (forma carinhosa de chamar a avó Chiquinha Madruga), morava ela, sua filha Adélia, o filho solteirão José Madruga, seu filho adotivo José, e duas empregadas, Geraldina e Angelita.

A casa era cheia de gente, uma casa grande de alpendre. O Encantado era povoado, não era como hoje: tinha a casa de Didinha, a de Áurea, a de Anita casada com Zé Maria, a dos Tavares, fora as casinhas de morador, pois era cheia de morador para trabalhar nos roçados.

Eu vivia na casa de farinha de Didinha. O solteirão Tio Zé plantava fumo, que se planta verde e colhe preto, para vender os rolões de fumo. Os rolos do fumo eram grandes, tinha que colocar para secar, se fazia para vender.

Diferente de hoje, naquele tempo, velho não tinha aposentadoria, não existia isso, não. O Tio Zé era medonho, gostava de ver todo mundo trabalhando. Fazia roçado, fazia farinhada, o Encantado era pequeno, mas era cheio de coisas.

Eu aprendi a ler com as irmãs. Anita que me ensinou mais. Eu era muito rude de conta, o marido de Anita que me ensinou. Aprendi o estudo com minhas irmãs mais velhas, não foi em escola não, nunca me lembro que fui à escola, aprendi tudo em casa.

Anita e Ridete, que mais velhas se tornaram professoras, hoje são aposentadas como professoras e eu me aposentei da minha velhice mesmo e do meu filho que Jesus levou faz tempo, fiquei com uma besteirinha dele.

Na minha mocidade, com 8 anos já me lembro do Encatado, vivia com meus pais e meus irmãos, tinha uma vida muito feliz, pois eu era muito destemida. Gostava muito do banho do rio Camaratuba. Nesse tempo tinha muito ingazeira, pinotava e caía na água.

Eu criava cabra, colocava capim para a vaca, com 15, 17, 18 anos, as irmãs eram muito unidas. Maria das Dores, a mais velha, era simples, não namorava, não gostava de nada, vivia doente, acabou-se ela.

Antes do casamento, cada um teve namoros antes, (“assim de vista”, quando se refere aos seus).

Com 24 anos me casei, ele tinha 27 anos. Houve casamento, todos bem arrumados, o casamento foi na Igreja do Bom Jesus, quem casou foi o padre Vital Bessa.

Como não tinha casa, antes do casamento, carecia de construir a casa. A madeira veio de fora, em cima de carro de boi. O enxoval foi: uma mesa, 6 tamboretes, uma cama, cada cônjuge trouxe uma mala bem grande, fogão de carvão. Não havia guarda-roupa, podia até existir, mas para a gente não.

A casa é a mesma que existe até hoje, toda vida teve o quarto de fora, o mesmo tamanho desde o casamento, nem aumentou nem diminuiu. O pagamento da casa foi do esposo mesmo, pois ele já tinha um trabalho.

O padrinho morreu quando Zezito tinha 6 anos. O primeiro filho foi Zezito, 2 anos depois veio João.

A vida de casada era melhor, já era dona da minha casa, ele tinha gado, não faltava leite.

Tive 5 filhos: José (Zezito), após 2 anos, João, após 7 anos, Antonio, após 7 anos, Fátima, após 7 anos, Pedro.

Essa diferença de idade não foi planejada. Exceto Pedro, todos os filhos nasceram na casa do Encatado.

Quando fiquei grávida de Zezito, eu estava forte. A parteira foi Rosa ou então Zefa Grande. A parteira fumava um cachimbo comprido, com bem cinco dias de sofrimento, ele nasceu.

Seu avô (Zé Pequeno) era nervoso, o pai andava de burro para a feira, João e Zezito ficavam em casa.

Zezito não gostava de trabalhar, gostava de estudar, ia para Recife com livro e voltava com livro. João era preguiçoso para estudar, mas era muito esperto.

Um dia no curral, Zezito mandou João levar o gado, um tinha que levar, mas nenhum ia. Eu fui lá e quebrei a vassoura, não sei em qual.

João andava com o pai, foi para Natal com carro de laranja, de farinha. Foi em várias viagens.

Eles moravam no Encantado, mas Rui Bessa arrumou um emprego de mostrar remédio para Zezito no Recife. Assim, começou a trabalhar, ainda trouxe uns remédios para mim, mas ele não gostava, pois não podia estudar.

O povo dos Bessa ainda disse que era preguiça, mas eu sei que não foi, foi porque não podia estudar.

Um dia, lendo jornal, encontrou um emprego na VASP, aí nesse dia entrou a felicidade nele.

Zezito nunca foi ao Exército ou Aeronáutica, pois tinha uma fratura na perna.

Uma vez, na época do São João, Zezito trouxe um radinho de presente. O pai perguntou se prestava, o rádio não funcionou, o pai perguntou se prestava, dizendo que não.

Saímos de casa para ir para novena. Quando chegamos, o rádio não parou de falar, o pai terminou dormindo com o rádio ligado a noite toda.

Tempos depois, Zezito trouxe um rádio maior.

João queria sair do Encantado, já estudara em Mataraca e em Mamanguape, onde Zezito também tinha estudado. Seu pai pagava o hotel que tinha umas velhas.

Zezito veio de Recife, de manhã olhou o gado, João quis se mudar para Recife, Zezito aconselhou a ficar. Havia 4 vaquinhas, um touro. Zezito disse para ficar tomando conta disso e ajudar o pai.

Eu tinha uma cabra com uns bodes. João deveria ter 17 anos e disse para eu vender a cabra e os bodes para tirar os documentos e fazer a viagem.

Foram vendidos, João tirou os documentos e foi embora para Recife. A vontade dele já era essa, pois não dava para fazer meio de vida com o gado do Encantado.

Ficou lá com Zezito, o primeiro serviço foi servir à Aeronáutica, passou 1 ano e 6 meses. Quando saiu, arranjou emprego e foi trabalhar na VASP.

João e Zezito colocavam cova dentro de água para tirar camarão e fazer dinheiro.

Zezito, João e Fátima não perdiam escola.

Zezito falava que tinha uma fazenda, seus amigos de Recife queriam vir conhecer, mas ele não trouxe ninguém, os amigos até queriam vir; João, quando fez os amigos, trouxe vários. Zezito não trouxe um amigo.

João já estava lá com ele, era soldado da Aeronáutica, e Zezito no seu emprego na VASP. Assim, Zezito comprou um fusca branco e chegou nesse carro. Eu ainda fui a Mamanguape com ele, as meninas de Zé Barbosa fizeram uma festa de alegria.

Depois, em outra viagem, ele levou Tonho, matriculou Tonho para estudar.

Em uma viagem de volta, o carro capotou, mesmo de dia. Antônio não sofreu nada, mas Zezito morreu na hora. Tinha 22 anos.

Apareceu um parente que tomou conta de Antônio.

Quando João soube, ele veio. Eu soube às 8h da noite, João chegou com Antônio, meu irmão. Passaram na casa de Anita, todos chegaram juntos em casa e eu fiquei muito admirada.

Quando João contou a história, eu me acabei, me alvorocei demais. Isso foi do sábado para domingo. O pai soube em Mataraca, eu vim pelo São Bento de pés, muita gente tomou conta de mim, com chá.

Até chegar o caixão, eu só vi a igreja com muita gente. Um homem ficou falando, falando, acho que reclamando da demora para o enterro. Aí João deu um murro.

Zezito era muito bom e prometia muita coisa ao pai. Disse que iria comprar um caminhão para fazer a feira em Natal, prometeu muito, mas não chegou ao tempo de dar.

Antônio depois voltou para Recife. Nessa época um gerente da VASP casou, era muito amigo de Zezito, ainda vivo. Esse gerente veio para o enterro e ofereceu hospedagem para Antônio continuar no estudo em Recife.

Eu voltei do enterro para casa. O povo pediu para não tocar no assunto da morte com Antônio, nem perguntar nem como tinha sido o acidente. Até hoje eu nunca perguntei.

Quando sentia vontade de chorar, ia para as bananeiras detrás de casa, mas não chorava na frente de Antônio. Da casa até o rio era uma plantação de bananeiras.

Zé também não era homem de conversa. A gente dormia junto, então às vezes conversava.”


Minha vó Antônia viveu longos e felizes 94 anos.

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