
Na entrevista coletiva para seu novo filme, a atriz Fernanda Montenegro, de 96 anos, surpreendeu a todos nós dizendo: “há uma hora na vida em que a gente não tem mais futuro. Sem morbidez. Tem só o presente. Eu acho que eu só tenho o presente”. Quando condenaram Sócrates à morte, ele respondeu: vocês me anunciam a morte por ordem do júri ateniense; mas a natureza já pronunciou a mesma sentença contra eles.
Ilustrando de outra forma o que Fernanda Montenegro diz: temos um manto que, quando jovem, protege-nos e, ao longo da vida, se desfaz fiapo por fiapo até, aos 96 anos, não restar nada, só nosso próprio couro para as intempéries da vida. Esse manto chamamos de futuro. Ora, mas tal manto não existe, é uma ilusão que criamos para nos manter, superar o dia a dia, aguentar os dissabores e as perdas. Sócrates sabiamente nos lembra que já fomos todos sentenciados. Existe apenas uma porta para entrar nesta vida e mil, ou milhares, para sair, não importa a idade. Veja hoje, que futuro nos resta? Até uma Terceira Guerra Mundial está no horizonte. O futuro não passa de ilusão, assim como para a nobre atriz, também para nós: só temos o presente.
Entretanto, só vamos nos deparar com essa realidade quando o desejo ardente esfriar, a paixão se apagar, os prazeres findarem, o corpo cair, a esperança deixar de brilhar nos olhos. Precisamos ter 96 anos para compreender isso? Ah, quem sabe morrer sabe viver.