Se pudesse voltar no tempo, para o ano de 1962, e entrevistar meu pai com 12 anos, no lugar onde morava, Sítio Encantado, seria mais ou menos assim:
-- Olá, pequeno João Madruga, tudo bom! Gostaria de lhe fazer algumas perguntas. Como foi para você crescer com os seus pais?
-- Opa, tudo bom sim! Posso responder sim ao que você quiser. Vamos lá. Olha, papai é um homem da terra, cuida de gado, amanhece o dia, ele sai para o curral para tirar leite das vacas. Ajudo ele nisso muito, até fiquei com meus braços fortes, veja. Para criar corpo é bom, mas o serviço é cedo e pesado. Então assim começa o dia dele e de toda a casa, desde quando me entendo por gente. O curral fica bem aqui na frente, lá em cima, perto do tabuleiro. Depois de tirar o leite tem que soltar o gado. Aí depende de onde está o pasto. Tem tempo em que está perto, junto até do curral. Tem tempo que tem capim grande lá na beira do rio, aí tem que levar o gado para lá. Já fiz muito isso, Zezito também. Vamos na égua. Mas papai sempre vai a pé. Ele é homem duro. Passou para mim esse gosto pelo trabalho. Não é de falar não, de dar conselhos, essas coisas, é de serviço mesmo. Ou às vezes fala com o olhar, mas não queira nem saber, quando vem com aquele olhar, já é de algo errado que eu fiz. Então pode esperar uma surra. No meio-dia ele volta para almoçar, todos temos que estar na mesa, ele sempre come feijão com farinha.
-- Seu pai conversa o que no almoço com todos na mesa?
-- Conversa nada não, seu moço, ele reza antes e pronto, comemos em silêncio. É sempre assim. Ele não gosta de bagunça nessa hora. Depois ele tira um cochilo por causa desse sol forte. Tá cada dia mais quente, não é não?
-- Está mesmo.
-- Então voltamos para a terra de tarde. Tem sempre um pedaço para preparar. E já quase na noitinha, papai volta para tanger o gado para dentro do curral: —BÔÔÔI, BÔÔÔI, BÔÔÔI, CHOOU, CHOOU, CHOOU, ERROOO, ERROOO, ERROOO. Grita alto, mais ou menos assim. Tem que prestar atenção para um ou outro bicho não pegar o caminho errado. Gosto de ficar ouvindo de longe. É quando eu mais ouço a voz dele.
-- Calma, pequeno João Madruga. Respira! Vamos continuar. Quero saber ainda como é o jantar.
-- Do mesmo jeito, papai reza antes, mas é em silêncio. Mamãe sempre faz papa para ele. Para mim também, mas eu como mais. O candeeiro fica aceso na mesa ou na parede. Quando é noite de lua dormimos mais tarde, porque fico com Zezito brincando ou conversando na frente de casa. Quando não é de lua, aparecem mais vaga-lumes no terreiro, fica bem bonito, já peguei alguns e coloquei num vidro, funcionou não, morreram. Nesses dias mais escuros, dormimos mais cedo. Às vezes, mamãe balança a minha rede.
-- Ah tá. Já ia perguntar dela.
-- Olha, ela é braba, tem gênio forte, mas é fantástica.
-- Preciso ir, infelizmente. O transporte que me trouxe está saindo agora.
-- Olhe, preste atenção ainda: um dia, no futuro distante, posso até partir, mas ficarei sempre aqui, pode voltar para o Encantado.