
“O dia em que nasci morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar,
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, o céu se lhe escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas, pasmadas de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!”
Este é o soneto mais intrigante de Camões. Logo Camões que escreveu versos tão lindos sobre o amor, por que escrevia algo assim sobre si? Ele sentia isso? Que aconteceu em sua vida? Outro poeta português, Fernando Pessoa, nos traz uma pista de esclarecimento:
“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.”
Melhorou para Camões, mas piorou para mim. Agora sou eu, o leitor, que sinto a dor do poema. Se li, me pegou. Pegou tanto que mandei o soneto de Camões para minha prima Érica, com quem compartilho essas eternidades em papel.
Como não existe um texto isolado no mundo, nada se cria, tudo se transforma, depois de alguns meses, Érica, mais leitora da Bíblia que eu, respondeu-me: aquele soneto foi tirado de Jó, é Jó falando. E era verdade, estava no capítulo 3:
¹ Depois disto abriu Jó a sua boca, e amaldiçoou o seu dia.
² E Jó, falando, disse:
³ “Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem!
⁴ Converta-se aquele dia em trevas; e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele, nem resplandeça sobre ele a luz.
⁵ Contaminem-no as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; a escuridão do dia o espante!
⁶ Quanto àquela noite, dela se apodere a escuridão; e não se regozije ela entre os dias do ano; e não entre no número dos meses!
⁷ Ah! Que solitária seja aquela noite, e nela não entre voz de júbilo!
⁸ Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam o dia, que estão prontos para suscitar o seu pranto.
⁹ Escureçam-se as estrelas do seu crepúsculo; que espere a luz, e não venha; e não veja as pálpebras da alva;
Jó 3:1-9
Da vida de Camões não saberia relatar que desgraça lhe sucedeu, mas por que Jó, ao invés de celebrar com um bolo e velas acesas como fazemos todos os anos, amaldiçoa o dia de seu nascimento?
Jó perdeu tudo que tinha, sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas, inimigos roubaram uns, e outros morreram por desastres. Quando ele estava tomando conhecimento dessas perdas, um mensageiro chegou contando que seus 10 filhos, sete homens e três mulheres, reunidos na casa do mais velho morreram por causa de um furacão que veio do deserto, nenhum sobreviveu.
A quem você recorreria quando tudo viesse a desmoronar? Indagado, Jó respondeu:
“Deus me deu, Deus tomou. Bendito seja o nome do Senhor!”
Ainda segundo suas palavras, “viemos a este mundo nu e assim sairemos”.
Interessante observar que esse personagem bíblico perde tudo que tinha e nos faz confrontar com seu sofrimento, desespero e sua impressionante resignação. Aliás, ele não perde tudo, ainda lhe restou a esposa, que não morreu e também não o abandona.
Que significado tem isso para a história? Certa hora, ela o lembra de que ele ainda conserva a sua integridade.
“Deus não nos colocou sobre a terra em inquietude tal como a que estamos, mas haverá uma hora em que dará termo às nossas misérias. Mas estou em apuro tal que não tenho alívio nem repouso, nem de noite, nem de dia: parece então que meu estado é pior que a dos outros, e que Deus está disposto a me afligir além do que a condição da vida humana é capaz de suportar.”
Essas são as suas palavras.
Apesar de tantas tragédias, ao fim, Deus lhe restitui seus bens e ele tem mais 10 filhos com sua mulher.
A história de Jó permanece de pé até hoje (e para todo o sempre), porque nos recorda que estamos sujeitos a perder tudo ou até mesmo sermos o tudo de alguém quando partirmos. Tormentos e acontecimentos adversos escapam ao nosso controle.
Diante do desmoronamento do que julgávamos seguro, sua experiência mostra o que realmente permanece. Entre o lamento e a esperança, Jó nos ensina que a integridade pode sobreviver à adversidade e que, mesmo quando não compreendemos os árduos caminhos da vida, é possível encontrar sentido na perseverança.
Talvez seja essa a razão pela qual suas palavras, ecoadas séculos depois nos versos de Camões, ainda nos comovam.