
Contas anônimas, robôs e perfis criados apenas para provocar usam racismo, homofobia, misoginia, ameaças, desinformação e conflitos políticos para conquistar visibilidade. Aprender a identificá-los pode ajudar a tornar as redes menos tóxicas — especialmente em períodos eleitorais.
Um comentário absurdo aparece na tela. Pode ser racista, homofóbico, transfóbico, misógino, xenofóbico, capacitista, antissemita ou intolerante com alguma religião. Em outros casos, promove bullying, assédio, perseguição, ameaças, violência contra mulheres ou até apologia ao feminicídio.
A reação imediata de muita gente é responder. Surge a vontade de discutir, corrigir, desmentir ou devolver a ofensa. Mas, antes de entrar em uma briga que pode durar horas, vale fazer uma pergunta:
Quem está realmente por trás daquele perfil?
Em muitos casos, não existe ali uma pessoa interessada em conversar. Pode ser uma conta falsa, um robô, um perfil coordenado, uma identidade roubada ou alguém que usa o anonimato exclusivamente para provocar revolta, espalhar ódio e aumentar a divisão entre as pessoas.
O problema está longe de ser pequeno. Uma pesquisa realizada pela UNESCO e pela Ipsos em 16 países mostrou que 67% dos usuários de internet entrevistados já haviam encontrado discurso de ódio online. Para a organização, educação e letramento digital são partes essenciais do enfrentamento ao problema.
A PROVOCAÇÃO PODE SER UMA ESTRATÉGIA
Alguns perfis não querem convencer ninguém. Querem apenas despertar raiva, gerar uma discussão interminável e atrair pessoas para a publicação.
Pesquisadores chamam a atenção para a força da indignação nas redes. Um estudo publicado na revista Science mostrou que conteúdos de desinformação conseguem explorar sentimentos de raiva e repulsa para circular. Quanto maior a indignação provocada, maior pode ser a vontade de compartilhar, mesmo quando a informação não é confiável.
Outra pesquisa, publicada na revista Scientific Reports, identificou que notícias negativas tendem a receber mais compartilhamentos nas redes sociais. Isso cria um incentivo para a produção de conteúdos cada vez mais alarmistas, agressivos ou revoltantes.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que determinados perfis fazem comentários tão cruéis. A indignação produz respostas. As respostas geram movimento. E esse movimento pode ser interpretado pelos sistemas de recomendação como sinal de que aquele conteúdo merece alcançar mais pessoas.
Até uma resposta feita para condenar o racismo, a homofobia ou a misoginia continua sendo uma interação. Por isso, em alguns casos, discutir com o provocador oferece justamente aquilo que ele procurava: atenção, comentários e visibilidade.
EM PERÍODO ELEITORAL, A ATENÇÃO PRECISA SER REDOBRADA
Em anos de eleição, a disputa pela atenção nas redes fica ainda mais intensa. Perfis falsos, contas automatizadas e redes coordenadas podem ser utilizados para espalhar informações falsas, atacar candidatos, manipular debates, fabricar uma sensação de apoio popular ou criar a impressão de que determinada opinião é muito maior do que realmente é.
Esses perfis podem defender ou atacar qualquer candidato, partido ou corrente ideológica. O objetivo nem sempre é fazer alguém acreditar em uma mentira específica. Em muitos casos, a estratégia é confundir, causar revolta, desacreditar instituições, aumentar a desconfiança e colocar diferentes grupos da sociedade uns contra os outros.
Por isso, o alerta vale para todos os lados.
Criticar um candidato, um partido, uma decisão de governo ou uma corrente política faz parte da democracia. Divergência política não é, por si só, discurso de ódio ou desinformação.
O problema começa quando aparecem ameaças, informações deliberadamente falsas, imagens manipuladas, acusações sem provas, racismo, homofobia, misoginia, ataques religiosos ou tentativas coordenadas de enganar o eleitor.
Diante de uma publicação política muito revoltante, não compartilhe imediatamente, mesmo que seja para criticá-la. Antes, verifique a origem, procure a informação em veículos confiáveis e observe se outros sites independentes confirmam o conteúdo.
Nas Eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral reforçou regras relacionadas à desinformação e ao uso de inteligência artificial e ampliou parcerias com plataformas digitais. O TSE também mantém um sistema pelo qual qualquer pessoa pode alertar sobre conteúdos falsos ou descontextualizados capazes de prejudicar a integridade do processo eleitoral.
NEM TODA CONTA SUSPEITA É UM ROBÔ
É importante evitar julgamentos precipitados. Uma pessoa pode não usar fotografia, ter poucos seguidores ou ter criado sua conta recentemente sem qualquer intenção maliciosa.
Também não é fácil distinguir uma pessoa real de um robô apenas olhando rapidamente o perfil. Estudos que analisaram milhões de contas encontraram diferenças entre o comportamento humano e o automatizado. Robôs tendem a publicar com maior frequência, repetir mensagens, usar muitas hashtags e participar de forma intensa de diferentes debates.
Mesmo assim, nenhum sinal isolado é uma prova.
O que deve ser observado é o conjunto: aparência do perfil, histórico de publicações, maneira de interagir e, principalmente, a intenção recorrente de atacar, enganar, manipular ou espalhar ódio.
SINAIS QUE MERECEM ATENÇÃO
Algumas características aparecem com frequência em contas falsas, automatizadas ou criadas exclusivamente para provocar:
* perfil sem foto ou com imagem genérica;
* fotografia retirada de outra pessoa, de um banco de imagens ou criada artificialmente;
* imagem de alguém de costas, distante ou que não permite nenhuma identificação;
* conta muito recente, sem histórico ou com pouquíssimas publicações próprias;
* conteúdo copiado de outros perfis, sem contexto ou qualquer relação pessoal;
* nome de usuário formado por muitas letras e números aleatórios;
* grande quantidade de comentários semelhantes publicados em páginas diferentes;
* respostas genéricas que não acompanham o assunto da conversa;
* mensagens repetidas palavra por palavra;
* publicações durante praticamente todas as horas do dia;
* uso excessivo das mesmas frases, hashtags, imagens e links;
* perfil que só aparece para atacar minorias, mulheres, jornalistas, artistas, instituições ou adversários políticos;
* mudança repentina de nome, identidade, idioma, localização ou assunto;
* conta que segue milhares de pessoas, mas quase não apresenta interações pessoais verdadeiras;
* seguidores que também parecem vazios, falsos ou criados recentemente;
* tentativa de conduzir usuários para links suspeitos, grupos desconhecidos ou páginas sem procedência;
* incapacidade de responder perguntas simples sobre aquilo que acabou de publicar;
* perfil que ignora argumentos e apenas repete provocações, insultos ou acusações.
Também é possível pesquisar a foto do perfil usando uma ferramenta de busca por imagem. Quando a mesma fotografia aparece associada a vários nomes, em diferentes países ou em bancos de imagens, existe a possibilidade de ela ter sido copiada.
Mas a regra continua sendo a mesma: não denuncie alguém apenas porque a conta não possui foto ou tem poucos amigos. A denúncia deve considerar o comportamento, as publicações e as violações cometidas.
O QUE FAZER DIANTE DE UM COMENTÁRIO DE ÓDIO
Ao encontrar um conteúdo extremamente ofensivo, pare antes de responder.
Primeiro, entre no perfil e observe o histórico. Veja se existe uma pessoa com atividade real ou se a conta parece ter sido montada apenas para atacar, espalhar boatos, manipular debates ou provocar discussões.
Depois, adote quatro medidas:
REGISTRE
Faça capturas de tela que mostrem o comentário, o nome do perfil, a data e, quando possível, o endereço da publicação. O conteúdo pode ser apagado posteriormente.
DENUNCIE O COMENTÁRIO
Isso permite que a plataforma analise aquela publicação específica e identifique qual regra pode ter sido violada.
DENUNCIE O PERFIL
Quando a conta apresenta um histórico de ataques, spam, falsa identidade ou comportamento automatizado, a análise não deve ficar limitada a apenas um comentário.
BLOQUEIE
O bloqueio impede novas interações e reduz a possibilidade de perseguição direta.
O CERT.br recomenda denunciar contas falsas e robôs utilizados para divulgar boatos. A instituição também alerta que seguir ou aceitar uma conta falsa pode ajudá-la a parecer legítima para outras pessoas.
Quando a publicação envolver desinformação sobre as eleições ou conteúdos manipulados capazes de prejudicar o processo eleitoral, também é possível utilizar o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral do TSE.
AMEAÇA NÃO É APENAS UM “COMENTÁRIO DESAGRADÁVEL”
Há situações que ultrapassam a provocação e podem configurar crime: ameaça de morte, perseguição, extorsão, divulgação de endereço ou telefone, exposição de imagens íntimas, incentivo a ataques, racismo, violência de gênero e invasão de contas.
Nesses casos, não basta bloquear.
Preserve todas as provas e procure uma delegacia especializada em crimes cibernéticos ou a delegacia mais próxima. Mesmo quando não existe uma unidade especializada na cidade, a vítima pode registrar a ocorrência em uma delegacia comum.
Violações de direitos humanos publicadas abertamente na internet também podem ser encaminhadas de forma anônima ao canal de denúncias da SaferNet Brasil.
NÃO TRANSFORME O AGRESSOR EM PROTAGONISTA
Responder pode ser necessário quando existe uma pessoa real aberta ao diálogo, quando uma informação precisa ser corrigida ou quando é importante demonstrar apoio público à vítima.
Mas isso é diferente de passar horas alimentando uma conta cuja única finalidade é provocar.
Não é necessário vencer uma discussão contra um robô, um perfil falso ou alguém que não demonstra qualquer interesse em compreender o assunto. A prioridade deve ser proteger quem está sendo atacado e reduzir a circulação daquele conteúdo.
Também é importante evitar republicar a ofensa inúmeras vezes. Ao compartilhar uma captura de tela, esconda informações pessoais da vítima e avalie se é realmente necessário reproduzir integralmente o conteúdo racista, homofóbico, misógino ou ameaçador.
A denúncia não deve se transformar em uma nova exposição.
UMA ATITUDE COLETIVA PODE FAZER DIFERENÇA
Uma denúncia isolada talvez não remova imediatamente um comentário ou uma conta. Ainda assim, denúncias podem ajudar as plataformas a identificar comportamentos repetitivos, redes coordenadas e perfis que acumulam violações.
Quando várias pessoas registram, denunciam e bloqueiam conteúdos semelhantes, enviam também uma mensagem às empresas responsáveis pelas redes:
A sociedade não aceita que racismo, homofobia, transfobia, misoginia, bullying, ameaças, desinformação política e incentivo à violência sejam tratados como entretenimento ou simples engajamento.
Não será possível eliminar toda a crueldade das redes sociais apenas com denúncias. Mas é possível diminuir o alcance de quem depende da nossa indignação para conquistar visibilidade.
Nos próximos meses, com o avanço do período eleitoral, a atenção deverá ser ainda maior. Antes de acreditar, compartilhar ou responder, verifique a informação e observe quem está por trás do perfil.
Talvez não exista ali uma conversa a ser vencida.
Não alimente o robô.
Não dê palco ao ódio.
Identifique, registre, denuncie e bloqueie.